O Treinamento Funcional e a Preparação Física de Atletas

Artigo elaborado por Gabriel Rainho Fontes e Michele Araújo Ferreira apresentado ao curso de Educação Física da Universidade Castelo Branco – RJ.

INTRODUÇÃO

Cada vez mais os profissionais da preparação física buscam métodos de condicionamento que perdure o suporte das demandas tanto físicas quanto energéticas das modalidades esportivas. Para isto, é necessário realizar paralelamente ao treinamento esportivo, um treinamento que busque melhorar a manutenção e desenvolvimento das valências físicas e capacidade funcional do atleta.  

O treinamento funcional (TF) ou treinamento funcional resistido emerge no contexto que consiste em reproduzir de forma mais eficiente possível os gestos motores e/ou os sistemas energéticos específicos do esporte praticado. Tem como objetivo primário resgatar, através de um programa de treinamento exclusivo, a funcionalidade do movimento. O TF na sua essência preza na excelência do movimento executado com o objetivo primordial de aprimoramento da capacidade funcional do atleta.

Na tentativa de buscar alternativas na área da preparação física, onde muitos atletas consideram a musculação um trabalho monótono, além de ser um método convencional de treinamento contra resistência (...) “com plano e eixo de movimentos direcionados que diminui drasticamente a exigência do equilíbrio, coordenação e os padrões complexos da ativação muscular que são primordiais no cotidiano dos atletas” (CAMPOS; NETO, 2004) surge esta proposta de preparação neuromuscular, onde o corpo é visto como unidade.

ESTRATÉGIAS DO TF NA PREPARAÇÃO FÍSICA

Na rotina da preparação física utilizando-se o TF enquanto metodologia principal pode-se intervir com métodos e programas de treinamento cabíveis para atingir os objetivos propostos.

Dentro da metodologia científica do treinamento desportivo, o treinador que aplica o TF em sua periodização pode aplicar estratégias como o circuit training, por ser polivalente e propiciar uma adequada preparação neuromuscular com referências em tempo fixo, carga máxima ou individualizada (DANTAS, 2003); pode-se utilizar para o desenvolvimento ou aprimoramento da resistência muscular localizada e da força explosiva e dinâmica, implementos alodinâmicos (DANTAS, 2003) como halteres, kettlebells (bola de canhão com uma alça na extremidade) que não compensam as variações ocorridas nos braços de alavancas ao longo do movimento. Treinamento muito comum com esses implementos é educativo do levantamento olímpico.

Os exercícios com peso livre, multiarticulares e de cadeia cinética fechada (onde a extremidade do membro fica fixa) são reportados na literatura científica como sendo os que oferecem maiores demandas metabólicas, estabilização e coordenação (COLETIVO DE AUTORES, 2001).

Os exercícios isométricos também são utilizados no TF, pois visa desenvolver a força estática de forma ponderável. Devido aos implementos existentes, esta estratégia pode ser reduzida ao treinamento da força estática, muito utilizada também na reabilitação física. Para a preparação física nos esportes este método se torna muito útil a ser aplicado com atletas, principalmente, de iatismo, judô, ginástica olímpica, tênis e natação (DANTAS, 2003).

Os exercícios de halterofilismo de efeitos gerais (sintéticos) e localizados (analíticos) são aplicados no TF através dos Exercícios com medicinbol que preconizam a velocidade do movimento; exercícios de acrobacia que busca o aprimoramento da coordenação motora; exercícios abdominais que são complementos indispensáveis na formação corporal.

Essa estratégia tem a finalidade de potência generalizada (desenvolve generalizadamente a força explosiva) ou localizada (desenvolve a força explosiva num determinado músculo – princípio da especificidade); potência explosiva (enfatizam a componente da velocidade da força explosiva utilizando pequenos implementos); e potência controlada (estimula a coordenação psicomotora com exercícios de acrobacia que utilizam o próprio peso corporal) (DANTAS, 2003).

Utilizando a pliometria o TF busca como finalidade o desenvolvimento da força explosiva, principalmente dos membros inferiores, embora se possa fazer trabalho pliométrico para membros superiores. DANTAS (2003) explica que o trabalho pliométrico também é conhecido como excêntrico-concêntrico ou treinamento da força negativa, pois se baseia num estímulo sobre o fuso muscular provocado por uma contração isotônica excêntrica ou negativa.

A PRÁTICA DO TF

Segundo D´ELIA e D´ELIA (2005, apud RIBEIRO, 2006) o TF treina movimentos, e não somente músculos, através de movimentos multi-articulares e multiplanares e do envolvimento da propriocepção, criando sinergia entre segmentos corporais e entre qualidades físicas, possibilitando ao atleta produzir movimentos mais eficientes através de características inconfundíveis:  Transferência de treinamento: quanto maior a especificidade e a semelhança do treino com a atividade, maior será a transferência dos ganhos do treino para essa mesma atividade; Estabilização: o TF usa quantidades controladas de instabilidade para que o indivíduo aprenda a reagir para recuperar a estabilidade. Com isso, o funcional consegue estimular o sistema proprioceptivo e a capacidade de reação; Desenvolvimento dos padrões de movimentos primários: O TF se baseia em sete movimentos considerados primários para a sobrevivência humana e para a performance esportiva, são eles: agachar, avançar, abaixar, puxar, empurrar, girar e levantar. O TF tem nesses movimentos sua matéria-prima, buscando adaptá-los à especificidade da atividade-alvo; Desenvolvimento dos fundamentos de movimentos básicos: existem quatro tipos principais de movimentos básicos: habilidades locomotoras (que movem o corpo de um lugar para o outro: andar, correr, pular), habilidades não-locomotoras ou de estabilidade (que envolvem pouco ou nenhum movimento da base de apoio: virar-se, torcer, balançar, equilibrar-se), habilidades de manipulação (que focam o controle de objetos usando basicamente as mãos e os pés; podem ser propulsores, como arremessar e chutar, ou receptivos, como agarrar) e consciência de movimento (que percebe e responde às informações sensoriais necessárias para executar uma tarefa); Desenvolvimento da consciência corporal: é o conhecimento que o indivíduo possui das partes do próprio corpo e da capacidade de movimento dessas partes; Desenvolvimento das habilidades biomotoras fundamentais: o desenvolvimento da força, do equilíbrio, da resistência, da coordenação, da flexibilidade e da velocidade é imprescindível. O TF desenvolve as habilidades de acordo com o grau de participação de cada uma delas no esporte de acordo com a fase de treinamento; Aprimoramento da postura: o TF exercita tanto a postura estática (posição em que o movimento começa e termina) quanto a postura dinâmica (capacidade do corpo de manter o eixo de rotação durante todo o movimento); Uso de atividades com os pés no chão: uma das características mais importantes do TF é o uso de exercícios que começam com os pés ou as mãos aplicando força contra o chão (movimentos de cadeia cinética fechada).

Esses exercícios possibilitam a aplicação de uma força maior do que nos exercícios de cadeia aberta, trabalhando todo o sistema neuromuscular e a habilidade do corpo de estabilizar as articulações ao longo do movimento; Exercícios multi-articulares: o TF trabalha com exercícios multi-articulares, desenvolvendo tanto a capacidade de estabilização quanto a coordenação intramuscular necessária para que haja eficiência nos movimentos e transferência dos ganhos para as atividades específicas; Exercícios multiplanares: os esportes envolvem movimentos das articulações nos três planos: sagital, coronal/frontal, transversal. Ao utilizar exercícios com os pés no chão e movimentos multi-articulares, o TF trabalha o corpo nos três planos; Desenvolvimento da sinergia muscular: a sinergia ocorre quando vários músculos trabalham juntos para conseguir uma ação coordenada das articulações. Somente os exercícios que envolvem todo o corpo na sua execução trabalham a sinergia muscular; uma vez que eles requerem alguns músculos para controlar o movimento ao mesmo tempo em que outros exercem a força.

CONCLUSÃO

Pode-se afirmar que esse tipo de treinamento se torna eficiente na rotina dos atletas, pois busca aperfeiçoar sua capacidade funcional e excelência no movimento mais aproximado possível do gesto esportivo que realiza. Essa intervenção é útil para os treinadores aproveitarem com seus atletas sejam quais forem as modalidades esportivas que atuam.

O desenvolvimento completo das habilidades motoras e qualidades físicas intervenientes aos esportes na preparação física utilizando o TF potencializam o rendimento atlético nas competições. O TF tem uma abordagem dinâmica, motivante, desafiadora e complexa, treinando o corpo para um melhor desempenho nos movimentos necessários nas atividades esportivas.
           
REFERÊNCIAS

COLETIVO DE AUTORES. Fundamentos do treinamento de força. Artemed, 2001.

D´ELIA, R.; D´ELIA, L. Treinamento funcional: 6º treinamento de professores e instrutores. São Paulo: SESC - Serviço Social do Comércio, 2005. Apostila.

DANTAS, Estélio H. M. – A prática da preparação física. Rio de Janeiro: SHAPE, 2003.

RIBEIRO, Ana Paula de Freitas. A eficiência do Treinamento Funcional Resistido. UNIFMU – Centro Universitário Faculdade de Educação Física. São Pulo, 2006.

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